O México fechou 2025 com um recorde histórico de investimento estrangeiro direto: 40.870 millones de dólares, um 10,8% a mais que no ano anterior. No mesmo país, um terço das empresas associadas à American Chamber of Commerce destina mais de 5% do seu orçamento operacional à segurança privada. As duas frases são verdadeiras, e entender por que é o que separa um investidor informado de quem leva uma surpresa.
O lado que sai nas manchetes
A confiança dos investidores no México está no seu melhor momento em anos. O país subiu seis posições no Índice de Confiança de Inversión Extranjera Directa de Kearney em 2026, do posto 25 ao 19, em um contexto global onde o capital se tornou muito mais seletivo por causa de tarifas e tensão geopolítica.
As projeções apontam para perto de 48.000 millones de dólares de investimento estrangeiro este ano. O motor tem nome: nearshoring. Empresas transferem produção para o México para encurtar cadeias de suprimento, reduzir custos logísticos e aproveitar o tratado com Estados Unidos e Canadá.
O lado que se paga no caixa
E ao mesmo tempo, isto:
- As empresas destinam entre um 2% e um 10% do seu orçamento anual para proteger instalações, cadeia de suprimento e pessoal, dependendo do estado e do setor.
- Um terço dos sócios da American Chamber of Commerce —que juntos representam mais do 20% do PIB mexicano— já gasta mais do 5% do seu orçamento operacional em segurança.
- O custo do crime para as empresas foi estimado em um 0,67% do PIB do país.
- A extorsão custou aos negócios cerca de 1.300 millones de dólares em 2023, e os casos continuam subindo: um 10% a mais no primeiro trimestre de 2025 em relação ao mesmo período anterior.
Há um dado que obriga a ler todos os anteriores com cuidado: o instituto de estatística mexicano calcula que 97% das extorsões não são denunciadas, por medo ou por desconfiança nas autoridades. Ou seja, o número real é pior que o publicado, e ninguém sabe quanto.
Por que as duas coisas convivem
Porque o investidor institucional não decide por manchetes: desconta. Inclui o custo da segurança no modelo financeiro, compara com o que se economiza em logística e tarifas, e se o número fechar, investe. Para muitas operações, esse 5% adicional continua sendo mais barato do que fabricar na Ásia e atravessar um oceano.
O que não perdoa é a surpresa. Um projeto que não orçou a segurança desde o início não se depara com um problema de segurança: se depara com um problema de rentabilidade, que é o que mata os investimentos.
Convém acrescentar que a segurança não é o único gargalo. As análises do setor apontam também a escassez de talento técnico bilíngue e digital, e a tensão sobre eletricidade, água e estradas nos polos industriais que mais cresceram rapidamente.
O que isso significa para quem comunica um investimento
- O dado agregado não serve. “México” não é uma unidade de risco: o custo de segurança vai de 2% a 10% dependendo do estado. Comunicar a média nacional é não comunicar nada.
- Colocar o custo na mesa dá credibilidade, não a tira. O investidor profissional já conhece a cifra. Quem a esconde não parece otimista, parece pouco preparado.
- O nearshoring não é um argumento, é um cálculo. Quem vender localizações industriais terá que chegar com números comparados —logística, tarifas, mão de obra, segurança— e não com o mapa da proximidade com Texas.
- A confiança se constrói com o verificável. Subir seis posições em um índice independente vale mais do que cem adjetivos em um folheto.
O resumo
O México está atraindo mais capital do que nunca e esse capital está pagando um prêmio de risco real e mensurável. Quem contar apenas a primeira metade está fazendo publicidade. Quem contar apenas a segunda, está fazendo alarmismo. As duas juntas são, simplesmente, a análise.
Fontes: Índice de Confianza de Inversión Extranjera Directa de Kearney 2026; cifras oficiales de inversión extranjera directa de México en 2025; reportes de la American Chamber of Commerce de México y análisis de riesgo empresarial y extorsión consultados en inglés el 19 de agosto de 2026. Imagem: Alejandro Islas Photograph AC / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.


